terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A Vulnerabilidade e a Informação: os mitos que impedem o parto normal


É bom mulheres e homens, que desejam ter filhos ou estão esperando um bebê, se informarem, a fim de que as mulheres possam ter um parto decente e humanizado e os homens possam oferecer apoio às mulheres e ser a sua voz. Quando chega o tão esperado momento (do nascimento do filho) homens e mulheres podem se tornar vulneráveis, principalmente as mulheres. A vulnerabilidade pode ser em decorrência da proporção que os acontecimentos vão tomando, uma vulnerabilidade afetiva ou comportamental,  até mesmo fruto das condições diretas do ambiente hospitalar ou não, e das circunstâncias culturais e sociais (também ditas protocolares). 

"Para melhor entendimento do conceito de vulnerabilidade, segundo Ayres (2009), a vulnerabilidade possui três dimensões analíticas: os aspectos individuais – biológicos, comportamentais e afetivos, que envolvem exposição e sensibilidade às situações, no sentido de estar descoberto e sensível às influências das circunstâncias dos momentos; os aspectos sociais, as características próprias a contextos e relações socialmente configurados; e, por fim, os aspectos programáticos, o modo e o sentido em que as políticas, programas, ações e serviços operantes nestes contextos interferem sobre as situações. “Cada uma das três dimensões é apenas uma perspectiva de uma realidade que é (...) única”, cada dimensão examinada sempre remeterá às outras duas, assim como cada dimensão é independente, dadas as particularidades das situações(...).
Quanto à dimensão social da vulnerabilidade, Meyer et al, 2006, apontam que os componentes para sua avaliação envolvem o acesso às informações, as possibilidades de metabolizá-las e o poder de incorporá-las a mudanças práticas na vida cotidiana; o acesso a recursos materiais, a instituições sociais – escolas e serviços de saúde, ao poder de influência em decisões políticas; à possibilidade de enfrentamento de barreiras culturais e de estar livre de repressões violentas de qualquer ordem.(...)
O aspecto programático da vulnerabilidade interliga os componentes individual e social ao envolver “o grau e a qualidade de compromisso, recursos, gerência e monitoramento de programas nacionais, regionais ou locais de prevenção e cuidado”, sendo importantes para identificar as necessidades, dirigir os recursos sociais existentes e otimizar seu uso. O componente programático orienta os profissionais de saúde a repensar o cuidado em saúde enquanto encontro de sujeitos, considerando que as pessoas não são em si vulneráveis, mas podem estar vulneráveis a alguns agravos, sob determinadas condições, em diferentes momentos de suas vidas (Meyer et al, 2006). (...)
Em citação de Meyer et al (2006) e Muñoz Sanchez & Bertolozzi (2007), Ayres (1999) significa a noção de vulnerabilidade como a probabilidade de exposição das pessoas às situações de sofrimento resultante de um conjunto de aspectos que, ainda que se refiram imediatamente ao indivíduo, o recoloca na perspectiva do sujeito e sua vinculação com o coletivo, já que um é intrínseco ao outro.(...)


Mais uma vez, o conceito de vulnerabilidade manifesta a concepção de afetação desses acontecimentos sobre os sujeitos e os grupos, ponderando sobre os impactos provocados e as estratégias de enfrentamento de cada um.  (...)
Ayres (2009) finaliza o assunto destacando que, cada uma das três dimensões anteriormente citadas pode ser subdividida em partes menores e assim por diante, existem inúmeras possibilidades. A elaboração de vários “todos” compreensivos de uma pessoa ou de um grupo familiar é feita a partir de vários pontos de vista de vários sujeitos implicados – os profissionais de saúde de diferentes categorias de um mesmo serviço ou programa, os referenciais teóricos e os membros familiares - cada um limitado a sua maneira e em constante transformação. Não há a possibilidade de se chegar a uma dimensão final, completa, absoluta. Também não existe um ponto de entrada para se estudar a vulnerabilidade de um ser ou de uma família. É importante que os profissionais de saúde auscultem aqueles que possuem os seus saberes cotidianos e lidam com suas próprias realidades de um jeito bem ou malsucedido." *

 O texto abaixo foi enviado por Milena Caramori do grupo de discussão Parto Nosso, tendo eu o seu consentimento para publicá-lo:

Aí vai a lista dos mitos mais comuns que impedem o parto normal por médicos cesaristas:

- FALTA DE DILATAÇÃO: toda mulher dilata, o médico é que não tem paciência para esperar o tempo da mulher e do bebê, que é muito variável. Aliás, nesse caso, há o risco de a mulher receber ocitocina por soro para acelerar o trabalho de parto. Acontece, que não sendo o momento certo, as mulheres não dilatam e o bebê entra em sofrimento, o que obriga a mulher a se submeter a uma cesariana. Mas a verdade é que num caso como esse, não há o respeito pelo tempo do corpo das mulheres e nem dos bebês, porque não é deixado acontecer naturalmente.

- TEMPO DE GRAVIDEZ: o tempo é o da mulher. Embora a média seja de 40 semanas, uma gestação pode chegar ao fim com 38 semanas, e existem mulheres que chegaram à 43 semanas. O que vale são os batimentos cardíacos do bebê, se estiverem dentro da normalidade, então está ok. Porém muitos médicos já marcam a cesárea imediatamente após a 38ª semana. É bom lembrar que a contagem de tempo do ultrasom pode ter erro e, nesse caso, o bebê pode nascer prematuro.

- CORDÃO ENROLADO: essa é a mais comum... gente, o bebê recebe O² pelo cordão, lembram? O cordão NÃO SUFOCA o bebê. Se o médico disser que precisa fazer uma cesárea por causa disso está ENGANANDO a paciente, aliás... de acordo com a OMS 40% dos bebês de parto normal nascem com o cordão enrolado. Novamente, o que importa são os batimentos cardíacos do bebê.

- BACIA ESTREITA OU BEBÊ GRANDE DEMAIS: acontece em casos muito raros, mas só dá para saber quando a dilatação já está completa. Se o médico disser isso no consultório está ENGANANDO a paciente, está falando sobre algo que elenão tem como saber.
- PARTO DEMORADO: pode durar uma hora, pode durar 3 dias... quem sabe? O médico NÃO SABE, o tempo depende da fisiologia da mulher, independe da pressa e dos compromissos do médico.

- BEBÊ ALTO ou "NÃO ENCAIXADO": o bebê pode encaixar antes do trabalho de parto, como pode encaixar somente na hora do nascimento, mas encaixa!

- IDADE DA GESTANTE: qualquer mulher pode ter parto normal, sendo muito jovem ou em idade avançada.

- BOLSA ROTA: é quando a bolsa estoura antes do trabalho de parto... é variável. Normalmente o médico marca logo a cesária quando a bolsa se rompe antes do trabalho de parto mas, novamente, o que importa são os batimentos cardíacos do bebê.

-MEDO DE AFROUXAMENTO DO ASSOALHO PÉLVICO: a famosa preocupação dos homens em "alargar" a mulher. É uma pena, meus queridos, mas esse afrouxamento acontece em razão do PESO do bebê na gravidez, independente da via de parto. O parto normal não deixa a mulher mais larga, já que a vagina é elástica. No mais, a mulher pode fortalecer os músculos de lá através do pompoarismo.

- MEDO DE DOER (dói, mas a mulher aguenta!) Aliás, o parto tem o poder de transformar a mulher em mãe, o que não acontece sempre na cesariana.

Meu filhote nasceu de parto normal:
- com cordão enrolado;
- só encaixou 10 minutos antes do nascimento;
- de 41 semanas (o Pedro nasceu de 42, que dá 9 meses completos... entrando no décimo mês... também de parto normal)

Procedimentos que os médicos costumam usar para fazer o parto normal e são totalmente desnecessários:

- CAMA: obrigando a mulher a ficar deitada com as costas retas (o parto pode ser feito de cócoras, com a cama inclinada, na banheira... etc);

- ESTRIBOS: (aqueles ferros para colocar as pernas), por experiência própria, só atrapalham e dificulta a fazer força;

- FÓRCEPS: é um absurdo existir médico que ainda usa isso! Machuca a mulher toda!!!

- KRISTELLER: gente, subir em cima da barriga da mulher para ajudar a saída do bebê (isso é ridículo, mas fazem);

- EPISIOTOMIA: corte para ampliar o canal vaginal (mas a vagina já é elástica, e está comprovado que um corte no períneo dá um total de 7 a 9 pontos, enquanto que na maioria dos casos as lacerações são pequenas (de 1 a 3 pontos) ou nem acontecem, dependendo da preparação da mulher);

- OCITOCINA: para acelerar o trabalho de parto, mas que na maioria das vezes provoca sofrimento fetal e não respeita o tempo da mulher e do bebê, provocando dores maiores;

- e NÃO DAR O DIREITO LEGAL A ACOMPANHANTE no momento do parto para ver as merdas que ele fez.

Todos esses procedimentos AGILIZAM O TRABALHO DE PARTO E O PARTO EM SI, mas NÃO SÃO NECESSÁRIOS e podem causar maior dor e sofrimento.




* Trecho retirado da minha monografia para adquirir o Título de especialista em Saúde Coletiva:

MARIN, Simone Menzani. Reflexão sobre as práticas de saúde do ponto de vista dos atendimentos familiares. Monografia (Especialização). Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010. 78p.

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...